Adaptação climática e Soluções Baseadas na Natureza em debate na Baixada Santista

Dulce Moraes.
Dulce Moraes.

Comunicação In Natura

Pesquisadores, técnicos e gestores públicos de sete municípios avaliam desafios e possibilidades para suas cidades

Como incorporar as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) às estratégias de adaptação climática considerando as características, necessidades e desafios de cada território? Essa foi uma das questões que orientaram o encontro “Soluções Baseadas na Natureza na Prática: uma agenda transdisciplinar para cidades justas”, realizado em Santos, nos dias 14 e 15 de setembro.

A Guajava acompanhou o encontro, que reuniu gestores públicos, especialistas, pesquisadores e organizações da sociedade civil para discutir caminhos para a aplicação das SbN como estratégia de adaptação climática, resiliência e construção de cidades mais justas.

Promovido pelo Laboratório de Desigualdades Ambientais, Mudanças Climáticas e Planejamento em Sistemas Socioecológicos, com a participação e apoio de pesquisadores da Unesp, Procam-USP, UFABC, Biota Fapesp e IAB Baixada Santista, o encontro também contou com oficinas e discussões sobre a realidade dos municípios e seus territórios e visita técnicas a iniciativas da região.

Experiências e desafios das cidades brasileiras

A pesquisadora do Procam-USP e fundadora da Guajava, Riciane Pombo, e o professor Newton Becker, da Universidade Federal do Ceará (UFC), compartilharam experiências de aplicação de Soluções Baseadas na Natureza em cidades brasileiras.

Os desafios para incorporar as SbN às políticas públicas e às agendas de resiliência climática e construção de cidades mais justas também estiveram presentes nos debates. As discussões contaram com a mediação do professor Pedro Cortes, da Unesp, e da especialista em clima Jussara Carvalho, uma das coordenadoras do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Riciane Pombo, do Procam-USP e da Guajava, e o professor Newton Becker, da Universidade Federal do Ceará (UFC), compartilharam experiências de aplicação de Soluções Baseadas na Natureza em cidades brasileiras.

Os custos da má adaptação

Um dos alertas do encontro veio da professora Maria Fernanda Lemos, da PUC-Rio, uma das coautoras do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Ela chamou a atenção para os riscos da chamada “má adaptação”.

Segundo a especialista, erros no desenvolvimento e na implementação de SbN e de outras estratégias de adaptação climática podem, no médio e longo prazo, gerar novas desigualdades e injustiças.

Maria Fernanda Lemos, da PUC-Rio, uma das coautoras do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) chamou a atenção para os riscos da chamada “má adaptação”.
“Tudo que a gente faz no processo de adaptação pode gerar um efeito. Por isso, é preciso avaliar sempre o efeito que a nossa ação tem sobre a desigualdade, sobre a justiça, para garantir que a gente não esteja fazendo ‘má adaptação’.”
Maria Fernanda Lemos
PUC-Rio de Janeiro

 

A discussão reforçou que adaptar as cidades às mudanças climáticas exige não apenas a implantação de soluções, mas também uma avaliação contínua de seus impactos sociais, ambientais e territoriais.

Cooperação entre municípios e participação social

A integração dos sistemas ecológicos urbanos e rurais por meio de SbN ainda demanda a superação de diferentes desafios apontados pelos especialistas durante o encontro. Entre eles estão:

  • superar lacunas de conhecimento e capacitação;
  • ampliar a adoção de soluções híbridas, que integrem infraestrutura verde e cinza;
  • criar mais espaços na cidade para a inserção funcional do verde;
  • desenvolver estratégias de cooperação intermunicipal;
  • ampliar a participação social na concepção e implementação das soluções.

 

Beatriz Laurindo, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Guarujá, uma das participantes dos sete municípios presentes, trouxe questões sobre capacitação de profissionais e da adminstração pública

Durante o evento, gestores públicos e equipes técnicas dos municípios de Santos, Guarujá, Peruíbe, Mongaguá, Praia Grande, Itanhaém e São Vicente participaram de uma oficina diagnóstica voltada à elaboração de planos municipais de adaptação climática com SBN. A atividade buscou identificar, a partir do conhecimento dos próprios municípios, áreas e necessidades prioritárias, principais desafios e oportunidades para a implementação de estratégias de adaptação.

Saberes locais também são soluções

A valorização dos saberes locais foi defendida por Riciane Pombo como elemento essencial para o desenvolvimento de projetos com Soluções Baseadas na Natureza.

“Muitos povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhas, quilombolas, caipiras, esses povos que sempre viveram da natureza e com a natureza, já realizam Soluções Baseadas na Natureza. Usamos o termo SbN, um conceito importado da Europa, mas essas tecnologias são ancestrais do mundo inteiro.”
Riciane Pombo
Fundadora da Guajava
Riciane Pombo, fundadora da Guajava, ressaltou a importância da participação social e valorização dos saberes locais

A especialista  relembrou que o Brasil está em um momento de construção da Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza, que, está aberta para consulta pública até o dia 27 de setembro, pela plataforma Brasil Participativo.

“Em pouco tempo essa Estratégia pode virar um decreto ou lei federal e é muito importante a participação e engajamento dos municípios, trazendo colaborações de fato para a realidade das implementações e das obras nas cidades. E isso depende muito de vocês que estão no poder público.”
Riciane Pombo
Fundadora da Guajava

A discussão sobre como transformar diretrizes nacionais em soluções adequadas às diferentes realidades locais ganha ainda mais significado no segundo dia do encontro, quando pesquisadores participantes tiveram a oportunidade de conhecer o Jardim São Manuel, na Zona Noroeste de Santos.