Projeto Vivo: saberes ancestrais e recuperação das águas na aldeia Tekoa Itakupé

Dulce Moraes.
Dulce Moraes.

Comunicação In Natura

Na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, a recuperação dos cursos d’água é um processo coletivo de regeneração ambiental, fortalecimento cultural e valorização dos saberes ancestrais do povo Guarani Mbya.

Apesar das legislações e das políticas públicas voltadas à proteção dos territórios indígenas, essas comunidades ainda enfrentam diversas pressões, como a expansão urbana e a degradação ambiental, que afetam suas condições de vida, sua autonomia e a continuidade de suas práticas culturais.

Essa é também a realidade da Terra Indígena Jaraguá, localizada na cidade de São Paulo, onde o povo Guarani Mbya resiste em suas oito aldeias para preservar sua profunda relação com a floresta, a água e o território.

Ao longo das últimas décadas, o povo Guarani tem enfrentado processos de degradação ambiental associados à expansão urbana, à presença de plantações de eucalipto, à poluição das águas e à ocorrência de incêndios florestais, entre outras ameaças que afetam a biodiversidade e os cursos d’água da região.  Essas transformações comprometem o equilíbrio ecológico e prejudicam práticas cotidianas e culturais fundamentais ao modo de vida Guarani.

Na Tekoa Itakupé, uma das aldeias da Terra Indígena Jaraguá, a Guajava vem colaborando com ações promovidas pelo educador, permacultor e indigenista Adriano Sampaio.

Projeto na Aldeia Itakupé

A Guajava Arquitetura da Paisagem e Urbanismo, por meio de sua fundadora, Riciane Pombo, contribui com projetos e ações voltados à proteção desse território, de grande importância ecológica e cultural para a cidade de São Paulo e seu entorno. 

Educador e indigenista Adriano Sampanio e equipe des especialistas da Guajava Arquitetura da Paisagem e Urbanismo
Educador e indigenista Adriano Sampaio com equipe da Guajava Arquitetura da Paisagem

Em 2024, a Guajava, em parceria com o Instituto Árvores Vivas e com o educador e indigenistaAdriano Sampaio, desenvolveu um projeto de recuperação socioambiental para a Tekoa Itakupé, com objetivo foi promover a restauração ecológica, revitalizar cursos d’água e florestais e reduzir vulnerabilidades fortalecendo autonomia da comunidade e de suas tradições.

A iniciativa foi contemplada pelo programa Teia da Sociobiodiversidade, do Fundo Casa Socioambiental, com apoio financeiro do Fundo Socioambiental CAIXA e acompanhamento e autorização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

SBN e saberes ancestrais

Com foco na recuperação do córrego e dos lagos, no reflorestamento de áreas atingidas por queimadas e no plantio de espécies nativas, o projeto integrou práticas tradicionais às técnicas de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), demonstrando como os saberes ancestrais podem dialogar com o conhecimento científico trazendo soluções conectadas às características e às necessidades do território.

Água como fonte de vida

Mais do que recuperar áreas degradadas, o projeto reconheceu que a proteção das águas é fundamental para preservar os territórios, a cultura e os modos de vida dos povos indígenas.

A água não é compreendida apenas como um recurso natural, mas como um elemento essencial à vida, à espiritualidade, à alimentação e à continuidade das relações entre a comunidade e seu território.

Recomposição do leito do riacho

Um trecho do córrego Manguinho foi desassoreado manualmente, e seu leito foi recomposto com pedras, utilizando a técnica step-pool, formada por uma sequência de degraus e pequenas quedas d’água.

Esse sistema, que reproduz o movimento natural da água, ajuda a dissipar a energia do escoamento, reduzindo os processos erosivos e criando condições mais favoráveis à diversidade de ambientes aquáticos.

Protegendo água e floresta

Para favorecer a estabilização das margens, foram implantadas grades-vivas, uma tipologia de Solução Baseada na Natureza (SBN).

Essas estruturas, feitas com bambus colhidos no próprio território e associadas ao plantio de árvores e arbustos nativos da Mata Atlântica, contribuem para a regeneração da mata ciliar e a recuperação das funções ecológicas do curso d’água.. Ao todo foram plantadas pela comunidade e voluntários 500 mudas de espécies nativas.

Recuperação e criação de lagos

Os lagos da aldeia enfrentavam problemas relacionados à baixa oxigenação da água. A recuperação dos cursos d’água e o plantio de espécies vegetais vem contribuindo para revitalização desses ambientes e favorecendo a criação de peixes para a subsistência e continuidade do nhanderekó — o modo de ser e viver Guarani.

Manejo ecológico e artesanato

O manejo adequado da taboa (Typha domingensis), espécie aquática presente nas áreas alagadas da aldeia, contribuiu para melhorar as condições ambientais dos lagos.

As folhas retiradas passaram a ser aproveitadas como matéria-prima para o artesanato da comunidade, estabelecendo um ciclo que integra recuperação ambiental, uso sustentável dos recursos naturais e valorização das práticas culturais.

Transmissão dos saberes ancestrais

O diálogo com a comunidade e a valorização dos conhecimentos Guarani orientaram a construção coletiva das estratégias propostas para o território.

Nos mutirões realizados com a comunidade e os voluntários, surgiram novas soluções, promovendo o aprendizado coletivo e fortalecendo os vínculos com o território.  A participação dos jovens da aldeia nesse processo tem sido fundamental para transmissão dos saberes tradicionais e fortalecimento da relação entre território, cultura e natureza.

A experiência na Tekoa Itakupé mostra a relevância  do respeito às dinâmicas ecológicas e sabedoria de quem vive e cuida do território.

A integração entre saberes ancestrais, práticas comunitárias, restauração ecológica e Soluções Baseadas na Natureza (SBN) abre caminhos para intervenções mais sensíveis às realidades locais, especialmente em territórios marcados por pressões urbanas e desigualdades socioambientais.

Para a Guajava, participar dessa iniciativa é também uma oportunidade de aprendizado e transformação das próprias práticas de projeto. Uma experiência que reafirma a importância de uma arquitetura da paisagem construída a partir da escuta, da colaboração e do respeito às diferentes formas de compreender, vivenciar e cuidar da natureza.