Entrevista: Direito à natureza na infância e soluções para escolas mais verdes e resilientes

Dulce Moraes
Dulce Moraes

Conexão In Natura.

A redução do contato com a natureza no cotidiano somado à escassez de áreas verdes nas cidades têm consequências diretas na saúde e na qualidade de vida da população.

Os impactos é ainda mais  preocupante em relação a crianças e adolescentes em idade escolar no Brasil, cujas escolas, em grande parte carecem de áreas verdes e enfrentam os efeitos das mudanças climáticas.

Com o objetivo de apoiar escolas a se tornarem mais verdes e resilientes, o Instituto Alana, com a consultoria técnica da Guajava Arquitetura da Paisagem e Urbanismo, lançou o livro Educação Baseada na Natureza, que reúne pesquisas e estratégias de adaptação climática por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SBN).

Este último post da série Escolas, Natureza e Clima, disponível no blog da Guajava, apresenta a entrevista com Paula Mendonça, do Instituto Alana, e Riciane Pombo, fundadora da Guajava.

Em um diálogo sensível e direto, as especialistas discutem desigualdades sociais, os impactos do clima na educação e caminhos possíveis para uma adaptação climática conectada à diversidade social, aos biomas brasileiros e com a participação da comunidade.

Veja os destaques da entrevista

Déficit de natureza nas cidades e na infância

Paula Mendonça — Mais de 80% da população vive em cidades pouco planejadas para a infância e para a natureza. Isso tem consequências diretas no dia a dia das crianças, que têm pouco acesso e pouca experiência direta com a natureza.

As cidades foram pensadas sem considerar a infância e a natureza, e isso impacta diretamente o cotidiano das crianças.
Paula Mendonça
Instituto Alana

— As ruas eram espaços de encontro e socialização das crianças. Por questões como segurança pública e mudanças na rotina, esses espaços foram perdidos, e as crianças passaram a ficar mais confinadas em ambientes fechados. Mais recentemente, o mundo digital passou a ocupar esse lugar do lazer. 

Esse conjunto de fatores resultou em problemas de saúde, como o aumento da obesidade infantil. Hoje, de cada três crianças, uma está com sobrepeso.
Paula Mendonça
Instituto Alana

— A criança precisa ter acesso à natureza, e as cidades precisam oferecer esse contato a uma distância caminhável.

O papel da escola e o direito da criança à natureza

Paula Mendonça — O contato da criança com a natureza é extremamente benéfico. Ela precisa do sol, de ar puro e de lugares verdes. Aprende melhor, cresce melhor e tem um desenvolvimento cognitivo e físico mais saudável.

O contato com a natureza é um direito da criança e deve ser garantido também no ambiente escolar.
Paula Mendonça
Instituto Alana

— A escola é estratégica porque está presente em todos os bairros. Em todo território há uma escola. Por que não pensar a escola como esse espaço de encontro com a natureza, beneficiando a saúde, o aprendizado e também a comunidade?

— A Educação Baseada na Natureza amplia as oportunidades pedagógicas do corpo docente, permitindo trabalhar mais os espaços externos e, ao mesmo tempo, melhorar o desenvolvimento e a saúde das crianças. Com o tempo, esse conceito se aproximou das crises ambientais, especialmente da mudança climática.

Desigualdade social e mudanças climáticas na educação

Paula Mendonça — As mudanças climáticas têm impacto direto no dia a dia das crianças. Muitas escolas são paralisadas por eventos extremos.

Riciane Pombo — As populações mais vulnerabilizadas sofrem mais em todos os aspectos: infraestrutura, acesso a serviços e, consequentemente, na estrutura das escolas.

As crianças que vivem em periferias são as mais impactadas pelos eventos extremos, seja pelo calor excessivo, pela chuva intensa ou pela falta de arborização.
Riciane Pombo
Guajava Arquitetura da Paisagem

— Crianças que caminham longas distâncias para chegar à escola, em ambientes com pouca arborização, chegam mais cansadas e encontram escolas que muitas vezes não estão adaptadas.

Paula Mendonça — A natureza é um direito das crianças, e as crises ambientais também são uma questão de direitos das crianças.

A mudança climática atinge a todos, mas não da mesma forma. Crianças e mulheres são mais vulneráveis a eventos extremos como enchentes e poluição.
Paula Mendonça
Instituto Alana

— Crianças em fases sensíveis do desenvolvimento sofrem ainda mais quando vivem em territórios com urbanização precária.

Realidade das escolas brasileiras frente à crise climática

Paula Mendonça — O Instituto Alana realizou uma pesquisa com o MapBiomas em todas as capitais brasileiras para entender a presença de áreas verdes nas escolas. O resultado mostrou que a maioria das escolas de ensino fundamental praticamente não tem áreas verdes.

— Muitas escolas estão localizadas em comunidades e favelas e não possuem sequer espaço disponível para arborização.

As escolas localizadas em comunidades e periferias são mais quentes, com menos ventilação e mais expostas às ilhas de calor.
Paula Mendonça
Instituto Alana

— Em muitos casos, as escolas estão em áreas de risco, próximas a rios ou encostas. Cerca de 89% dessas escolas estão em comunidades ou favelas.

— A desigualdade climática é territorial. A justiça climática tem CEP.

Por que Soluções Baseadas na Natureza nas escolas?

Paula Mendonça — Eventos extremos têm causado paralisações frequentes nas escolas, afetando diretamente o aprendizado.

— Enchentes no Rio Grande do Sul e a seca no Amazonas são exemplos de como a crise climática impacta a rotina escolar, inclusive a alimentação das crianças.

— As ondas de calor são uma preocupação crescente. Por isso, tornou-se urgente planejar e adaptar as escolas.

As soluções baseadas na natureza ajudam a enfrentar eventos extremos e também situações cotidianas, como o calor excessivo.
Paula Mendonça
Instituto Alana

Olhar territorial e dos biomas

Uma escola não pode ser construída do mesmo jeito em todo o Brasil. O território é diverso, física e socialmente.
Riciane Pombo
Guajava

Riciane Pombo — A desigualdade envolve infraestrutura, questões sociais, climáticas e raciais. A escola e a criança recebem todos esses impactos.

Participação da comunidade e saberes locais

Paula Mendonça — As Soluções Baseadas na Natureza são, muitas vezes, simples e utilizam materiais locais.

— O processo participativo é também um processo educativo, envolvendo leitura do território, do bioma e do espaço escolar.

Quando o estudante aprende a resolver problemas do território, ele leva esse conhecimento para a vida.
Paula Mendonça
Instituto Alana

Riciane Pombo — Trabalhar com processos participativos é fundamental. Crianças e adolescentes trazem referências dos lugares que conhecem e dos saberes das suas famílias.

— Esse resgate ativa a criatividade e fortalece soluções baseadas na natureza conectadas à realidade local.

Educação baseada na natureza: propósito do guia

Paula Mendonça — O guia busca apoiar o planejamento das escolas. Os recursos existem, mas é necessário planejamento e entendimento da realidade de cada rede.

— A parceria com o FNDE amplia o alcance do material, permitindo que ele chegue efetivamente às escolas públicas.

A escola pode ser um refúgio climático e um espaço de transformação social.
Paula Mendonça
Instituto Alana

Riciane Pombo — Pensar projetos com o olhar da natureza é essencial para adaptar as cidades e inspirar novas formas de viver.

— Se cada pessoa levar essa semente adiante, estaremos ampliando a presença da natureza na educação e na vida cotidiana.

Educação Baseada na Natureza, produzido pelo Instituto Alana e Guajava, fala sobre direito à natureza na infância e adaptação climática com Soluções Baseadas na Natureza

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