Diretora da Guajava fala sobre normalização das Soluções Baseadas na Natureza no Brasil, em encontro da USP

Dulce Moraes
Dulce Moraes

Conexão In Natura.

Na última terça-feira (10),  a arquiteta urbanista e fundadora da Guajava, Riciane Pombo, teve a oportunidade de compartilhar com os integrantes do Grupo de Interação e Pesquisa em SBN (GIP-SBN), da Universidade de São Paulo (USP) — que reúne pesquisadores e especialistas de diversas regiões e instituições — os principais desafios relacionados à regulamentação, normalização e capacitação técnica em SBN no país.

Riciane é proponente e coordena a equipe responsável pela elaboração do texto-base da primeira norma técnica brasileira de SBN, com apoio do CGEE e Ministérios de Meio Ambiente e Cidades, atualmente em análise pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). A proposta trará diretrizes fundamentais para validar e caracterizar uma SBN no contexto brasileiro.

Durante a apresentação, foram retomados marcos importantes da implementação de SBN em políticas públicas das quais a Guajava participou, como os estudos sobre a integração de SBN nas obras do PAC, o programa SBN nas Periferias (MCid), além de projetos, capacitações, catálogos e publicações técnicas desenvolvidos em parceria com órgãos públicos e instituições como ICLEI, ONU-Habitat, GIZ Brasil, CGEE, Instituto Alana, Cetesb, Secretaria Nacional de Periferias (MCid) e diversas prefeituras.

Riciane também destacou a importância da norma aliada à capacitação de profissionais e equipes técnicas, especialmente aquelas que atuam em licenciamento ambiental e fiscalização, além de alertar para os riscos de uso das SBN como instrumento de “gentrificação verde”.

Acompanhe os principais temas discutidos

Trajetória da Guajava para ampliação das SBN em projetos públicos

Riciane destacou o trabalho na interface entre prática projetual e formulação de políticas públicas, ressaltando a contribuição de projetos e estudos técnicos para instrumentos governamentais.

“Hoje estou com enfoque na regulamentação, normalização e capacitação em SBN em função de anos de experiência técnica e prática de muitos anos, que se por uma demanda da FCTH para colaboração de apresentar propostas e soluções alternativas que estão nos Cadernos de Drenagem de São Paulo.”

A especialista também mencionou sua participação em estudos estratégicos para o governo federal, incluindo análises sobre a incorporação de SBN em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e iniciativas de financiamento verde e no Plano de SBN para Periferias, pelo Ministério das Cidades.

“Nesse plano estabelecemos eixos fundamentais: redução de riscos hidrológicos, geológicos e geotécnicos, e redução de ondas e ilhas de calor.”

Territorialização, justiça social e governança das SBN

Um dos pontos centrais da apresentação foi a necessidade das soluções garantir de equidade social em um país continental como o Brasil.

SBN precisa ser territorializada. Essas soluções têm que ser sistêmicas e integradas ao território.

A especialista também enfatizou a importância da governança:

Quais os índices de acompanhamento e monitoramento? Como garantir o acesso equitativo dos benefícios principalmente para as pessoas mais vulnerabilizadas? Tem que contribuir para a justiça social e fortalecimento do pertencimento. A manutenção e gestão das obras de SBN tem que ser assumidas pelo governo local com participação e governança social.

Riciane alertou ainda para o risco de que as SBN sejam apropriadas como produtos de mercado 

É preciso garantir que as SBN não se transformem em produto em um processo de gentrificação.

Financiamento, viabilidade econômica e programas públicos

A diretora da Guajava destacou estudos que demonstram a viabilidade econômica das SBN e sua aplicação em políticas estruturantes. E citou exemplos de aplicação integrada, como drenagem sustentável, mobilidade urbana arborizada e gestão de resíduos com processos naturais.

Precisa comprovar tecnicamente, mas também incentivar o quanto financeiramente isso é viável para projetos de grande impacto. Mostramos, em estudos para a Casa Civil, como é possível viabilizar SBN nas obras do PAC, conectando infraestrutura cinza e soluções baseadas na natureza.

Origem da Norma Técnica de SBN

A proposta de criação da norma surgiu em um evento com gestores públicos, pesquisadores e representantes do governo federal.

A gente sentiu a demanda de comprovar e embasar juridicamente e tecnicamente as iniciativas propostas. Em agosto de 2024 já estava em um grupo aprovando o início dessa discussão.

A especialista esclareceu que a norma proposta não vai definir critérios  de dispositivos específicos.

 

A norma pretende determinar definições e termos do que é uma SBN no Brasil, com princípios e diretrizes que devem ser seguidos para que uma iniciativa seja validada como SBN.

Entre os princípios estruturantes  estão:

  • resposta efetiva aos desafios socioambientais e climáticos
  • visão sistêmica e integrada
  • geração de benefícios à sociobiodiversidade e integridade dos ecossistemas

Perspectiva brasileira e crítica à mercantilização das soluções

Riciane enfatizou a necessidade de uma abordagem brasileira para as SBN, alinhada às realidades sociais locais.

“As soluções baseadas na natureza têm que refletir os territórios.”

Ela criticou a transformação de soluções ambientais em produtos elitizados:

Tetos verdes viraram um mercado caro e adotado em edificações de alto padrão. Quem mais precisa são as pessoas em situação vulnerável. Nossa ideia é garantir que as SBN no Brasil não sejam fruto de produto de mercado.

Contribuição técnica e metodológica da Guajava

A Guajava produziu ao longo da última década, um conjunto robusto de materiais técnicos que fundamentam a proposta normativa. Entre eles estão:

  • Cadernos de Drenagem Urbana de São Paulo
  • Manual de replicação de projetos em fundos de vale (ONU Habitat / Instituto Polis)
  • Catálogo de Soluções Baseadas na Natureza para Espaços Livres
  • Metodologias de avaliação de riscos, benefícios e indicadores de SBN
  • Quantificação dos Riscos e Benefícios Ambientais, Econômicos e Sociais da Implantação do Parque Fluvial do Bairro Jardim Maravilha

 

Todo esse material técnico produzido está disponível para consulta online no acervo de publicações da Guajava

Lacunas regulatórias e necessidade de capacitação técnica

A especialista destacou que a normatização precisa ser acompanhada por capacitação de técnicos e atualização institucional.

Os técnicos ainda não estão preparados para analisar projetos de SBN. Falta parâmetro e diretriz. A norma é importante, mas é preciso capacitar os órgãos públicos e estabelecer indicadores e responsabilidades de monitoramento.

Ela relatou experiências de mentoria com órgãos ambientais e prefeituras, além da necessidade de atualização do sistema jurídico e institucional para lidar com essas soluções.

Caminhos futuros

A proposta da norma segue em discussão na ABNT e deverá passar por consulta pública e participação ampla.

Esperamos que esse processo chegue a todos, especialmente aos pesquisadores, para que as SBN sejam estratégicas e valorizem nossas técnicas ancestrais e nossos territórios.

A expectativa é que a normatização fortaleça a adoção das Soluções Baseadas na Natureza como instrumento estruturante de adaptação climática, planejamento urbano e justiça socioambiental no Brasil.

Palestra na íntegra:

Cadastre-se para participar de cursos ou solicitar projetos para sua cidade, comunidade ou escola?