Escola, Natureza e Clima: refúgios climáticos com Soluções Baseadas na Natureza
Dulce Moraes
Conexão In Natura.
O verão chegou trazendo altas temperaturas, chuvas intensas e uma sucessão de alertas climáticos. Em contextos de eventos extremos — como enchentes, ondas de calor ou deslizamentos — as escolas frequentemente assumem um papel estratégico, tornando-se portos seguros e bases de apoio para comunidades afetadas.
De acordo com estudo da Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), publicado em 2021, mais de 2 bilhões de crianças em todo mundo estão expostas a pelo menos um risco climático e ambiental. No Brasil, esse número chega a 40 milhões de crianças.
Como garantir que esses espaços estejam preparados para enfrentar os impactos das mudanças climáticas? E como transformar as escolas em lugares de aprendizado vivo, que estimulem uma relação mais equilibrada entre seres humanos e natureza?
Uma das respostas possíveis a esse desafio está em trazer mais natureza para dentro e ao redor das escolas, contribuindo para o enfrentamento de outro problema que afeta, especialmente, crianças: a falta de contato frequente com a natureza, que gera impactos negativos à saúde física e mental dos estudantes.
Ambientes escolares com infraestrutura verde podem funcionar como refúgios climáticos, oferecendo conforto térmico, segurança hídrica e bem-estar, além de favorecer o desenvolvimento integral das crianças.
Foi a partir dessa perspectiva que o Instituto Alana lançou, em 2025, a publicação Educação baseada na Natureza: um guia para escolas mais verdes e resilientes, que contou com consultoria técnica da Guajava Arquitetura da Paisagem sobre projetos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) para escolas e o apoio institucional do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.
Para cada desafio climático e ambiental verificado no levantamento feito pelo Instituto Alana, com escolas de todas as regiões e biomas brasileiros, a Guajava desenvolveu projetos aplicáveis e que podem oferecer:
– Maior conforto térmico e proteção contra calor extremo e poluição;
– Redução dos impactos de enchentes e períodos de seca;
– Ampliação da biodiversidade e fortalecimento dos ecossistemas locais;
– Melhoria nos processos de aprendizagem, saúde e bem-estar dos estudantes;
– Ganhos sociais para a comunidade e para a cidade como um todo.
O guia completo está disponível em em formato digital. Acesse aqui.
Três jardins climáticos
Três propostas apresentadas no guia são de jardins que promovem adaptação climática com Soluções Baseadas na Natureza . Além de ajudar a comunidade a enfrentar os desafios relacionados ao clima, esses dispositivos são instrumentos de aprendizado para os alunos.
Jardim de chuva
O jardim de chuva é uma depressão suave no terreno projetada para coletar, reter e infiltrar a água da chuva que vem por telhados, calçadas, pátios ou ruas pavimentadas. O objetivo é reduzir o volume de escoamento superficial de água direcionado ao sistema de drenagem urbana.
Trata-se de uma solução climática de baixo custo e manutenção simples, desde que alguns critérios técnicos sejam respeitados, como:
- O local de implantação deve ser adequado e a base de infiltração deve estar posicionada a pelo menos 1,5 metro acima do lençol freático;
- A vegetação utilizada deve ser apropriada, preferencialmente espécies nativas, capazes de resistir tanto a períodos de seca quanto a alagamentos temporários.
Além de favorecer a infiltração da água e a evapotranspiração, a vegetação dos jardins de chuva contribui para a estabilidade do solo, o aumento da biodiversidade e a atração de polinizadores. Esses espaços também oferecem abrigo para a microfauna, como anfíbios, que auxiliam no controle natural de mosquitos.
Canteiro pluvial
A primeira vista pode parecer apenas um canteiro, mas ele conta com as mesmas funções de adaptação climática de um jardim de chuva. Sua dimensão reduzida e formato mais compacto, ideal para áreas externas do pátio das escolas.
Para garantir eficiência e evitar transbordamentos, o sistema deve contar com um extravasor e um duto conectado à drenagem convencional. A água acumulada deve escoar em um período controlado — geralmente até 24 horas após chuvas leves e até 48 horas após chuvas intensas — evitando a proliferação de insetos e bactérias.
Não é uma solução cara, mas pode precisar de ajuda e orientação de profissionais para sua instalação. É comum o uso de pedras em uma das bordas do canteiro para limitar o impacto da força da água e proteger a estrutura.
Além de contribuir para a prevenção de alagamentos e redução do calor, os canteiros pluviais em escolas podem oferecer estímulos sensoriais e oportunidades pedagógicas, permitindo trabalhar temas como plantas, solo, água e clima de forma prática.
Jardim aquático ou Wetland para tratar efluentes
Conhecido também como wetland construído ou zona úmida de raízes, esse tipo de jardim tem a função de tratar esgoto e remover poluentes, contando com a ajuda da natureza.
O sistema funciona a partir da condução do efluente para um tanque impermeabilizado, preenchido com material filtrante, onde se desenvolvem também plantas aquáticas.
E, então, a mágica acontece: a interação entre plantas, micro-organismos, solo e água realiza a filtragem biológica, oxigenação e remoção de contaminantes, devolvendo ao meio ambiente uma água em condições seguras.
Embora exija conhecimento técnico especializado, maior investimento inicial e manutenção moderada, esse tipo de jardim é importante contribuição para atenuar a escassez hídrica e diminuir o calor extremo, além de seu grande potencial educativo.
Wetland didático e acessível à população
A Guajava Arquitetura da Paisagem e Urbanismo entregou à cidade de São Paulo um dos primeiros de wetland urbanos com acesso livre à população. Localizado junto à estação ferroviária Cidade Jardim da CPTM, este jardim concilia infraestrutura ecológica, educação ambiental e qualificação paisagística em um mesmo espaço.



O que vem por aí
Nas próximas semanas, a série apresentará outras formas de tornas as escolas espaços mais resilientes, educativos e conectados à natureza.
Acompanhe os temas:
- Águas na Escola: Reservatórios (cisternas), espelhos d’água biológicos e lagos naturalizados;
- Telhados verdes, ventilação e iluminação natural como estratégias de conforto térmico;
- Miniflorestas, ilhas verdes, túneis vivos e paredes verdes;
- Elementos de brincar e salas de aula ao ar livre;
- Entrevista com Guajava e Instituto Alana