Terraço-de-chuva: solução de adaptação climática inspirada em técnicas ancestrais

Como reduzir a velocidade do escoamento das águas em terrenos íngremes e, ao mesmo tempo, favorecer a infiltração da água no solo?

Ao se depararem com esse dilema durante o desenvolvimento de um projeto de drenagem e resiliência para áreas próximas a rios e córregos na cidade de São Paulo,  as equipes da Guajava Arquitetura da Paisagem e da Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) de São Paulo chegaram à ideia de uma nova tipologia de Solução Baseada na Natureza (SBN): os terraços-de-chuva.

A inspiração veio de longe, dos terraceamentos agrícolas desenvolvidos por povos andinos e na China. Na Antiguidade, diferentes povos utilizavam técnicas de terraceamento para cultivar áreas em encostas, aproveitando a topografia dos terrenos para controlar o escoamento da água, reduzir a erosão e favorecer a irrigação das plantações.

Como dispositivo de SBN para adaptação climática, os terraços-de-chuva, partem de um princípio semelhante. Em alguns aspectos, eles se aproximam dos jardins de chuva, mas são especialmente adequados para terrenos íngremes. A solução cria patamares que ajudam a coletar e infiltrar a água das chuvas, reduzindo seu volume e velocidade e contribuindo para evitar a sobrecarga de rios, córregos e galerias pluviais.

A implantação é feita por meio de  degraus construídos aproveitando a inclinação do terrento. Os materiais utilizados são pedras ou troncos de madeira ou pedras para bordas, vegetação nativas  resilientes e características adequadas ao clima e camadas de pedras e materiais minerais para melhorar a infiltração e filtragem da água. 

Entre os benefícios proporcionados pela solução estão a melhoria da estabilidade dos taludes, a redução de processos erosivos e a contribuição para a recarga do lençol freático. A vegetação incorporada ao dispositivo ajuda a filtrar a água como atrair insetos polinizadores contribuindo para a preservação da biodiversidade.

Os terraços-de-chuva podem e devem estar integrados a outros dispositivos de SBN como biovaletas, jardins de chuva, entre outros, potencializando seus benefícios.

Terraço-de-chuva em praça da Vila Madalena

Em 2023, a Guajava doou ao município de São Paulo um projeto que previa a implantação integrada de dispositivos de Soluções Baseadas na Natureza.

A proposta transformaria uma escadaria hidráulica próxima ao Beco do Batman, na Vila Madalena, em uma intervenção voltada à contenção de processos erosivos e à redução do risco de deslizamentos em um terreno de alta declividade na Praça José Antônio de Oliveira.

O projeto previa ainda a implantação de uma escadaria hidráulica vegetada, conectada a jardins de chuva e a um poço de infiltração. Integrados, esses dispositivos contribuem para melhorar o escoamento, o tratamento e a infiltração das águas superficiais e pluviais.

Com recursos do edital SOS Mata Atlântica – Melhoria da Água na Bacia do Rio Pinheiros e apoio da Heineken e da Prefeitura de São Paulo, chegou-se à implantação de um sistema de terraços-de- chuva na praça.

A intervenção promoveu o plantio de mais de 2.200 mudas de espécies nativas e a requalificação do espaço público, contribuindo para a redução do efeito de ilha de calor, a restauração ecológica, a proteção da biodiversidade local e a fitorremediação do solo e das águas.

Como etapa complementar e fundamental do projeto, também foram realizadas oficinas participativas com a comunidade, em parceria com o Instituto Rios e Ruas. As atividades combinaram educação ambiental, letramento climático e conhecimento sobre os rios da região.